Comprimida
Efervescente
Solúvel;
Transpareço, atravesso..
Num primeiro suspiro matinal,
Abrigo às mangas do meu casaco pesado, no seco dos primeiros espaços de vida de um novo dia
Tudo que há em mim.
O distúrbio mental, que eu não funciono muito bem às 7h
O jazz sorridente aos fones de ouvido
O café pelante nas paredes da minha garganta arranhada
Um tênis.
Comprimo-me.
É como se fosse uma poção, sendo preparada com esmero, mas qualquer descuido causa explosão.
E ao longo dos passos que dou, dos trombos nos desconhecidos que correm de um lado pro outro como se fossem perder o parto do seu próprio filho, as portas fechadas, às vezes que chove,
O jazz vira rock e eu preciso de alguém, de algum.. eu preciso de mim com mundo.
Por mais que as ruas estejam cheias de pensamentos ensurdecedores, papéis voando a cidade, vendedores ambulantes me obrigando a usar um carregador de automóvel - "Amigo, eu não tenho carro!".
Preciso me dividir, que me encheram sem nem que eu pedisse ou demonstrasse com as minhas expressões bizarras que queria alguma coisa.
Uma brisa, leve, muito leve e de pouca duração passa por entre as minhas narinas que me fazem respirar fundo a ficar prestes a expirar todos os meus anexos imprecisos.
Já corro sem fones, ouvindo buzinas, o rock sou eu e eu faço o seguinte:
- "Com licença!?"
(silêncio de gente, barulho de rua, nenhum movimento.)
- "Caham* Com licença?"
(Mais alto que a rua sou eu gritando por dentro)
- "Mas será possível!? Minhas pernas falham, minha voz não é essa, minhas costas doem e eu preciso fumar. ME DÊ LICENÇA?"
(Somente um movimento foi notado por mim, por mais que eu tenha gritado com força e quase falido o meu pulmão negro de fumante maldita e todos tenham atentado a louca das olheiras imensas, do casaco no calor de 40º)
Efervesci!
Um senhor, devia ter seus 70 e alguma coisa, me olha com as sobrancelhas levantadas, um sorriso de canto de boca, com um ar de dó. Dó de mim. Não das minhas pernas, da minha voz ou das minhas costas.
- "Acalme-se, menina. Eu esperei a vida inteira e não estou a gritar; Porque não tenho mais voz, uso bengalas e nem mais sinto as costas. Vê se pare de fumar! Minha velha se foi por conta desse cigarro. Eu chorei, mas não gritei. O seu dia vai melhorar, não piore o dos outros. Ali naquela sala tem copos descartáveis e água filtrada. Volte quando estiver mais calma; De repente te dou meu lugar."
Foi como se ali, tudo que haviam depositado na minha caixinha do desespero, tivesse voado ao sopro de um homem, seja ele sábio ou não. Simplesmente experiente.
Chorei mas não gritei.
Segurei forte as mãos do senhor que agora me olhava com um sorriso de orelha a orelha.
Voltei pra casa ouvindo samba, respirando juventude, pisando em sombras, pensando muito.
Sentei no bar e pedi uma cerveja;
Ao encontrar com os amigos, contei minha história; todos riram.
Depois do brinde, uma querida disse alto: - "À Rhaysa, que se mistura!"
Respondi ainda sóbria: - "Sou filha de muitos!"
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