Eu já escorregava na madeira.
Poeira e brisa entra à janela.
Mordia a folha seca sob o travesseiro.
Tirava a roupa numa tentativa de cobrir com a mesma o colchão que já
cinza desenhávamos com os dedos como em para-brisas.
E nem nas roupas nós cabíamos mais..
Foram-se os diálogos de uma noite inteira
Que o que me disse entrou por um ouvido e ecoava na cabeça enquanto
ouvia o "reco-reco" daquele estrado muito velho,
O "chic-chic" dos pedriscos entre minha e tua barriga,
Os "uuu's" da ventania que na vizinhança confortavam boas
noites de sono.
Aqui dentro gelava o suor que escorria os membros, secava a língua tão
exposta à essa sujeira..
E eu dançava com ela seca que trepidava pelas canelas cor de barro,
joelho, coxas, virilha, em pó.
Outra música começava quando o "crec-crec" do outono
denunciava alguém lá fora, pisando as folhas, chegando tarde.
E o pulmão, por ora, falecia.
A garganta arranhava, os olhos ardiam, a língua esturricada.
Dividíamos as mãos, de fluidos entre os dedos, lambíamos sem fim.
Era sede, tesão.. era gozo.
E quem diria que a tua tão singela beleza permitiria você estirada ao
chão, enrolada num plástico bolha, tossindo e gemendo em meio aos nossos
espasmos finais.
Eu fiquei de pé, te olhava tão de cima e você de baixo tão
superior.
Tão linda, tão marrom, tão marcada..
Meus dedos do pé tremiam involuntários e você engatinhava até o meu
tornozelo, mordia tão leve e afiados dentes..
Com os seios frios, encosto a sola em teu colo e te levo ao chão novamente.
De joelhos caio num rendimento, tão forte que os meus cabelos cobrem-me
o rosto e eu deito ao teu lado no "tec-tec" das bolhas.
Eu só queria um café, um cigarro, uma foto em sépia..
Um chiclete de canela.
Língua na língua.
Salivamos de novo.
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